{"id":154,"date":"2025-12-10T10:38:25","date_gmt":"2025-12-10T13:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/liveapp.com.br\/guaira\/?p=154"},"modified":"2025-12-10T10:38:25","modified_gmt":"2025-12-10T13:38:25","slug":"o-estudo-global-que-contesta-queda-da-desigualdade-no-brasil-celebrada-pelo-governo-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/liveapp.com.br\/guaira\/o-estudo-global-que-contesta-queda-da-desigualdade-no-brasil-celebrada-pelo-governo-lula\/","title":{"rendered":"O estudo global que contesta queda da desigualdade no Brasil celebrada pelo governo Lula"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2-g1.glbimg.com\/QtRDnLBrgaOZ77j5f9y5suQ9JNk=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2025\/H\/T\/cRTLQ7TJujRiDaRM39Lg\/3f222670-d509-11f0-9fb5-5f3a3703a365.jpg.webp\" \/><br \/>     O Brasil est\u00e1 ficando ainda mais desigual ou, ao contr\u00e1rio, a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres vem diminuindo?<br \/>\nDois estudos recentes mostraram cen\u00e1rios opostos para essa quest\u00e3o, esquentando o debate entre economistas.<br \/>\nUm novo relat\u00f3rio sobre desigualdade global divulgado nesta quarta-feira (10), o World Inequality Report 2026, afirma que a renda concentrada no bolso dos mais ricos aumentou nos \u00faltimos anos no Brasil, tornando o pa\u00eds ligeiramente mais desigual entre 2014 e 2024.<br \/>\nAinda segundo esse relat\u00f3rio, produzido por um amplo grupo de economistas, entre eles o franc\u00eas Thomas Piketty, a desigualdade brasileira &#8220;permanece entre as mais altas do mundo&#8221;.<br \/>\nVeja os v\u00eddeos em alta no g1<br \/>\nVeja os v\u00eddeos que est\u00e3o em alta no g1<br \/>\nA conclus\u00e3o entra em choque com uma nota t\u00e9cnica rec\u00e9m-divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), que apontou que a desigualdade brasileira atingiu o menor n\u00edvel em 30 anos em 2024.<br \/>\nEsse estudo mostrou tamb\u00e9m um importante aumento na renda dos mais pobres e a consequente redu\u00e7\u00e3o da pobreza ao menor patamar em tr\u00eas d\u00e9cadas.<br \/>\nA publica\u00e7\u00e3o do Ipea foi celebrada por autoridades do governo de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT), que chegou a receber no Pal\u00e1cio do Planalto a presidente do instituto, Luciana Servo, acompanhada dos autores da nota t\u00e9cnica: os pesquisadores Pedro Herculano Souza e Marcos Dantas Hecksher.<br \/>\nHouve, por\u00e9m, controv\u00e9rsia entre economistas. Os dados sobre a redu\u00e7\u00e3o da pobreza s\u00e3o considerados corretos, mas o an\u00fancio de que a desigualdade estaria em uma baixa hist\u00f3rica \u00e9 alvo de questionamentos.<br \/>\nPara estudiosos do tema ouvidos pela BBC News Brasil, a metodologia usada pelo Ipea n\u00e3o mede com precis\u00e3o a renda dos mais ricos \u2014 por isso, n\u00e3o seria a mais apropriada para calcular desigualdade.<br \/>\nOs pr\u00f3prios autores do estudo foram transparentes sobre isso e apontaram essas limita\u00e7\u00f5es ao publicarem os resultados. Ainda assim, a decis\u00e3o de usar os dados, apesar desses problemas, gerou incompreens\u00e3o entre os especialistas entrevistados.<br \/>\nInclusive porque um dos autores, Pedro Herculano Souza, \u00e9 um soci\u00f3logo premiado por seus estudos sobre desigualdade e j\u00e1 demonstrou, em pesquisas passadas com m\u00e9todo diferente da nova do Ipea, n\u00fameros que contrariam a conclus\u00e3o de que a concentra\u00e7\u00e3o de renda estaria em queda no pa\u00eds.<br \/>\nSegundo essas pesquisas anteriores, a desigualdade ficou est\u00e1vel entre 2005 e 2014, per\u00edodo que, no novo estudo do Ipea, se deu queda expressiva da concentra\u00e7\u00e3o de renda.<br \/>\nO estudo foi celebrado no Pal\u00e1cio do Planalto. A informa\u00e7\u00e3o de que a desigualdade estaria no menor patamar em 30 anos passou a ser destacada por Lula e ministros do governo, como Gleisi Hoffmann, chefe da Secretaria de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais.<br \/>\n&#8220;Em julho, a FAO [Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura] confirmou que o Brasil saiu mais uma vez do mapa da fome. Na \u00faltima semana, o IPEA divulgou que atingimos o menor n\u00edvel de desigualdade da s\u00e9rie hist\u00f3rica. E hoje, novos dados do IBGE mostram que mais de 8 milh\u00f5es de pessoas sa\u00edram da pobreza&#8221;, postou Lula na rede social X, no dia 3 de dezembro.<br \/>\n&#8220;Resultados que se complementam, e mostram que o Brasil vive uma nova realidade, com mais oportunidades, melhora da renda e redu\u00e7\u00e3o da desigualdade. E que apontam a dire\u00e7\u00e3o correta de se governar: do lado do povo brasileiro&#8221;, continuou.<br \/>\nApesar das controv\u00e9rsias sobre os rumos da alta desigualdade brasileira, especialistas ouvidos pela reportagem reconhecem que o governo Lula tem adotado medidas para enfrentar o problema.<br \/>\nEntre elas, destacam a aprova\u00e7\u00e3o pelo Congresso da reforma do Imposto de Renda proposta pelo presidente, que vai, de um lado, isentar do IR todos que ganham at\u00e9 R$ 5 mil e, de outro, criar um novo imposto m\u00ednimo de at\u00e9 10% para os que ganham a partir de R$ 50 mil por m\u00eas.<br \/>\n O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT)<br \/>\nRicardo Stuckert \/ PR via BBC<br \/>\nA diferen\u00e7as entre o estudo do Ipea e o relat\u00f3rio internacional<br \/>\nControv\u00e9rsias metodol\u00f3gicas est\u00e3o no cerne dos resultados t\u00e3o divergentes dos dois novos estudos sobre desigualdade.<br \/>\nEnquanto a an\u00e1lise do Ipea \u00e9 baseada apenas em dados de renda coletados em pesquisa pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o World Inequality Report 2026 usa esses dados associados a informa\u00e7\u00f5es da Receita Federal, fonte considerada mais precisa para medir os rendimentos dos mais ricos por ter como base as declara\u00e7\u00f5es de Imposto de Renda feitas pela popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs n\u00fameros do IBGE analisados v\u00eam da Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad). Nesse tipo de levantamento, pesquisadores visitam os domic\u00edlios de uma amostra representativa da popula\u00e7\u00e3o e perguntam a renda das pessoas entrevistadas.<br \/>\nCom isso, estabelecem um panorama sobre como a renda se divide na popula\u00e7\u00e3o e como esses ganhos est\u00e3o evoluindo ao longo do tempo.<br \/>\nEntre estudiosos da distribui\u00e7\u00e3o de renda, por\u00e9m, \u00e9 consenso que pesquisas domiciliares tendem a subestimar a renda das pessoas.<br \/>\nEssa subestima\u00e7\u00e3o n\u00e3o acontece apenas no topo da pir\u00e2mide, mas costuma ser mais significativa entre os ricos, cuja maior parte da renda n\u00e3o vem de sal\u00e1rios, mas de investimentos e ganhos de capital (vendas de bens, por exemplo).<br \/>\nOs pesquisadores do Ipea reconhecem o problema. \u00c0 reportagem, Pedro Souza disse que escolheu n\u00e3o usar dados da Receita Federal porque eles estavam menos atualizados que os do IBGE quando iniciou seu estudo.<br \/>\n&#8220;Nossa an\u00e1lise \u00e9 inteiramente baseada em informa\u00e7\u00f5es de pesquisas domiciliares, que possuem limita\u00e7\u00f5es importantes. No mundo todo, esse tipo de pesquisa enfrenta dificuldades para captar os rendimentos de trabalhadores por conta pr\u00f3pria e empregadores, transfer\u00eancias da assist\u00eancia social e, principalmente, rendimentos financeiros e do capital e outros rendimentos recebidos irregularmente&#8221;, diz a nota t\u00e9cnica do Ipea.<br \/>\n&#8220;No Brasil, a concentra\u00e7\u00e3o de renda no topo \u00e9 muito maior nos dados tribut\u00e1rios e segue trajet\u00f3ria distinta da revelada pelas pesquisas domiciliares&#8221;, continua a publica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSegundo o economista Guilherme Klein, professor da Universidade de Leeds (Reino Unido), a subestima\u00e7\u00e3o da renda em levantamentos como a Pnad ocorre tanto porque os mais ricos tendem a informar nessas pesquisas rendimentos menores do que de fato possuem \u2014 seja intencionalmente, seja por n\u00e3o terem claro quais s\u00e3o seus ganhos \u2014 como pela dificuldade de acessar essas resid\u00eancias para entrevistar esse grupo, que muitas vezes vivem em domic\u00edlios mais protegidos.<br \/>\nPor isso, Klein considera &#8220;um problema&#8221; o estudo do Ipea trazer conclus\u00f5es sobre desigualdade apenas baseado nos n\u00fameros da Pnad.<br \/>\n&#8220;Quando a gente fala de desigualdade, \u00e9 fundamental a gente olhar para o topo, para o 1% mais rico, para o 0,1% mais rico, e a gente s\u00f3 consegue olhar para isso olhando os dados da Receita Federal&#8221;, defende.<br \/>\n&#8220;Quando voc\u00ea combina os dados da Pnad com os dados de Imposto de Renda, voc\u00ea tem uma vis\u00e3o melhor, mais consistente da desigualdade. Ent\u00e3o, eu acho de fato que \u00e9 um problema voc\u00ea n\u00e3o fazer isso e falar sobre desigualdade&#8221;, continuou Klein, que \u00e9 tamb\u00e9m pesquisador associado do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de S\u00e3o Paulo (Made\/USP).<br \/>\nSegundo os n\u00fameros da Pnad analisados pelo Ipea, a renda m\u00e9dia mensal por pessoa cresceu quase 70% no Brasil entre 1995 e 2024, passando de R$ 1.191, para R$ 2.015.<br \/>\nCom isso, a pobreza extrema caiu consideravelmente. Em 1995, um quarto da popula\u00e7\u00e3o estava nesse grupo. Trinta anos depois, a taxa caiu de 25% para 5%.<br \/>\nA melhora desses indicadores, aponta o Ipea, \u00e9 reflexo da expans\u00e3o de programas de transfer\u00eancia de renda, como o Bolsa Fam\u00edlia, e do aumento da oferta de emprego.<br \/>\nJ\u00e1 o coeficiente de Gini (indicador que mede a desigualdade e varia de 0 a 100, sendo 100 a desigualdade m\u00e1xima) recuou quase 18%, de 61,5 para 50,4, quando se analisam os dados da Pnad. \u00c9 esse \u00faltimo dado que gera controv\u00e9rsias.<br \/>\nO que diz o World Inequality Report?<br \/>\nO World Inequality Report 2026 traz um amplo apanhado da desigualdade no mundo, mostrando a persist\u00eancia da forte concentra\u00e7\u00e3o de renda no planeta.<br \/>\nO relat\u00f3rio foi produzido pelo World Inequality Lab, um laborat\u00f3rio internacional de estudo da desigualdade, que tem o franc\u00eas Thomas Piketty como um de seus diretores.<br \/>\nPiketty se projetou globalmente ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do livro O Capital no S\u00e9culo XXI (2013), em que analisou historicamente a concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza em diferentes pa\u00edses.<br \/>\nNo caso do Brasil, os dados analisados no novo relat\u00f3rio indicam que a renda concentrada pelos 10% mais ricos tem oscilado nos \u00faltimos anos, com tend\u00eancia de alta.<br \/>\nO aumento mais significativo ocorreu durante a pandemia de coronav\u00edrus (2020\/2021), momento em que grupos de maior renda conseguiram se proteger da turbul\u00eancia econ\u00f4mica, enquanto os mais pobres foram mais prejudicados pela interrup\u00e7\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o de diversas atividades.<br \/>\nSegundo esses dados, a fatia da renda nacional detida pelos 10% mais ricos subiu de 57,9% em 2014 para 59,9% em 2021. Depois disso, o percentual recuou para 59,1% em 2024, mas continuou acima do observado uma d\u00e9cada antes.<br \/>\nNo sentido inverso, a fatia da renda detida pelos 50% mais pobres caiu de 10,7%  em 2014 para 8,2% em 2021, apresentando, depois, recupera\u00e7\u00e3o parcial e chegando a 9,3% em 2024.<br \/>\nPara medir a evolu\u00e7\u00e3o da desigualdade, o relat\u00f3rio usa um indicador obtido ao dividir a fatia da renda dos 10% mais ricos pela fatia da renda dos 50% mais pobres.<br \/>\nEsse \u00edndice subiu de 53,7 para 63,5 entre 2014 e 2024, evidenciando o aumento da desigualdade. O \u00e1pice ocorreu em 2021, quando chegou a 73.<br \/>\nA BBC News Brasil questionou os economistas do World Inequality Lab, respons\u00e1veis pelo relat\u00f3rio, sobre a metodologia utilizada e as diverg\u00eancias em rela\u00e7\u00e3o ao estudo do Ipea.<br \/>\nNa resposta enviada por meio da assessoria de imprensa, eles afirmam que estat\u00edsticas oficiais sobre desigualdade na Am\u00e9rica Latina, baseadas exclusivamente em pesquisas domiciliares, capturam apenas parte da renda nacional e subestimam a renda do capital (valores obtidos com investimentos ou vendas de propriedades, por exemplo).<br \/>\n&#8220;Isso cria uma percep\u00e7\u00e3o equivocada de sociedades que parecem ser mais pobres e menos desiguais. No World Inequality Lab, estamos trabalhando para corrigir esse vi\u00e9s&#8221;, disseram ainda.<br \/>\n&#8220;Nossas estimativas s\u00e3o constru\u00eddas utilizando informa\u00e7\u00f5es de pesquisas domiciliares, mas tamb\u00e9m de outras fontes das autoridades fiscais e das contas nacionais de cada pa\u00eds. Mesmo com premissas conservadoras, a desigualdade aumenta significativamente&#8221;, continuaram.<br \/>\nA resposta indica que os n\u00fameros brasileiros analisados no relat\u00f3rio juntam dados do IBGE, respons\u00e1vel pela Pnad e o c\u00e1lculo das contas nacionais, e da Receita Federal, autoridade fiscal brasileira.<br \/>\nOs dados de declara\u00e7\u00e3o de Imposto de Renda, por\u00e9m, s\u00f3 est\u00e3o dispon\u00edveis at\u00e9 2023 no Brasil, o que significa que os autores do World Inequality Report 2026 fizeram extrapola\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas para estimar a distribui\u00e7\u00e3o de renda em 2024, usando dados da Pnad e proje\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias para a renda dos mais ricos.<br \/>\nA reportagem pediu esclarecimentos sobre isso aos autores do estudo, por meio da assessoria de imprensa, mas n\u00e3o obteve retorno at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPesquisador do Ipea diz que optou por dados do IBGE por serem mais atualizados<br \/>\nA BBC News Brasil conversou sobre as cr\u00edticas ao estudo do Ipea com um dos autores, o soci\u00f3logo Pedro Herculano de Souza, que \u00e9 refer\u00eancia em estudos da desigualdade.<br \/>\nSeu doutorado nesse tema, realizado na Universidade de Bras\u00edlia, ganhou o pr\u00eamio Capes de melhor tese em Sociologia em 2017. Dois anos depois, ele recebeu o pr\u00eamio Jabuti pelo livro &#8220;Uma Hist\u00f3ria da Desigualdade: a Concentra\u00e7\u00e3o de Renda entre os Ricos no Brasil \u2013 1926-2013&#8221;.<br \/>\nSouza foi um dos primeiros a incorporar dados do Imposto de Renda na an\u00e1lise da desigualdade brasileira e, naquele momento, seus estudos chamaram aten\u00e7\u00e3o ao revelar que a desigualdade n\u00e3o havia recuado entre os anos 2005 e 2014, como apontavam estimativas anteriores, feitas apenas com base nas pesquisas domiciliares do IBGE.<br \/>\nO per\u00edodo foi marcado por forte crescimento econ\u00f4mico e redu\u00e7\u00e3o da pobreza, mas a queda da desigualdade n\u00e3o se confirmou porque houve tamb\u00e9m alta relevante da renda dos mais ricos, captada pelas declara\u00e7\u00f5es de IR.<br \/>\nAt\u00e9 por isso, sua decis\u00e3o de publicar agora uma nota t\u00e9cnica do Ipea baseada apenas nos dados de renda da Pnad causou surpresa entre estudiosos do tema.<br \/>\n\u00c0 BBC News Brasil, Souza disse que optou por n\u00e3o usar dados do Imposto de Renda em sua an\u00e1lise porque n\u00e3o havia n\u00fameros atualizados.<br \/>\nSeu objetivo, contou, era entender a evolu\u00e7\u00e3o da renda ap\u00f3s a pandemia, mas quando iniciou o estudo, em mar\u00e7o, s\u00f3 existiam dados tribut\u00e1rios dispon\u00edveis at\u00e9 2021.<br \/>\nAo longo do ano, a Receita atualizou esses n\u00fameros at\u00e9 2023.<br \/>\nJ\u00e1 a Pnad, pesquisa domiciliar do IBGE, \u00e9 feita trimestralmente e tem atualiza\u00e7\u00e3o mais frequente, o que permitiu analisar a din\u00e2mica da renda at\u00e9 2024.<br \/>\n&#8220;Para mim, o processo cient\u00edfico normal \u00e9 esse: voc\u00ea pega o melhor dado poss\u00edvel para o objetivo que voc\u00ea quer&#8221;, disse.<br \/>\n&#8220;No nosso caso, tinha uma demanda clara de saber a evolu\u00e7\u00e3o [da pobreza e da desigualdade] de curto prazo, do p\u00f3s-pandemia, porque acho que est\u00e1 pegando muita gente de surpresa, n\u00e3o s\u00f3 na quest\u00e3o de pobreza e desigualdade, mas no desempenho econ\u00f4mico, a pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o do baixo desemprego e o comportamento da infla\u00e7\u00e3o&#8221;, disse ainda.<br \/>\nEmbora seja um defensor do uso de dados tribut\u00e1rios para estudos sobre desigualdade, Souza diz que os n\u00fameros da Receita Federal tamb\u00e9m devem ser vistos com cautela, pois, \u00e0s vezes, mudan\u00e7as na taxa\u00e7\u00e3o de investimentos geram ajustes nas aplica\u00e7\u00f5es dos mais ricos que acabam gerando ganhos de renda extraordin\u00e1rios que distorcem a s\u00e9rie hist\u00f3rica.<br \/>\nNa sua avalia\u00e7\u00e3o, o forte aumento da renda dos mais ricos captada nos dados do IR durante a pandemia ainda precisa ser mais bem esclarecido.<br \/>\nAl\u00e9m do aumento apontado pelo World Inequality Report, essa alta tamb\u00e9m foi identificada no estudo &#8220;Concentra\u00e7\u00e3o de renda no Brasil: o que os dados do IRPF revelam?&#8221;, publicado em agostos pelo Fiscal Data, de autoria dos economistas Frederico Nascimento Dutra, Priscila Kaiser Monteiro e S\u00e9rgio Wulff Gobetti.<br \/>\n&#8220;\u00c9 um aumento muito grande e num per\u00edodo muito curto. Eu n\u00e3o sei se est\u00e1 contaminado por alguma coisa tempor\u00e1ria da pandemia, se isso \u00e9 um problema das tabelas da Receita&#8221;, disse Souza \u00e0 reportagem.<br \/>\nAl\u00e9m disso, o soci\u00f3logo defende que a Receita aperfei\u00e7oe a divulga\u00e7\u00e3o dos dados tribut\u00e1rios, que hoje ainda \u00e9 feita de forma limitada e com restri\u00e7\u00f5es. Por exemplo, cita o pesquisador do Ipea, h\u00e1 dificuldade para identificar se a renda declarada \u00e9 de uma pessoa apenas ou se envolve c\u00f4njuge e dependentes.<br \/>\nAinda assim, ele diz que far\u00e1 a an\u00e1lise dos dados tribut\u00e1rios quando informa\u00e7\u00f5es mais atuais forem disponibilizadas pela Receita.<br \/>\n&#8220;Se, em algum momento que a gente tiver os dados de IR mais recentes e conseguir construir uma s\u00e9rie longa, as conclus\u00f5es [sobre os rumos da desigualdade] mudem, a gente muda as conclus\u00f5es, porque a gente vai atualizando as conclus\u00f5es conforme as melhores informa\u00e7\u00f5es e melhores m\u00e9todos dispon\u00edveis. Estou muito curioso&#8221;, ressaltou.<br \/>\nO estudo global que contesta queda da desigualdade no Brasil celebrada pelo governo Lula<br \/>\nGetty Images via BBC<\/p>\n<p class=\"lchrssa-source\">Fonte: <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2025\/12\/10\/o-estudo-global-que-contesta-queda-da-desigualdade-no-brasil-celebrada-pelo-governo-lula.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">G1 Economia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1 ficando ainda mais desigual ou, ao contr\u00e1rio, a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres vem diminuindo? Dois estudos recentes mostraram cen\u00e1rios opostos para essa quest\u00e3o, esquentando o debate entre economistas. 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